ANA E A ONÇA
(conto)
- Ana, vem com a gente!
O velho jipe cheio de lama se afastava com a turma.
Ela não tirava os olhos dele, sem compreender
aquela repentina expressão de enfado. Como se ficar com ela já não fosse o
supremo interesse de sua vida.
- Vamos ficar, Matias! – Ele, só olhando a grama. –
Você não quer? A gente volta amanhã cedo.
Ele se sentou na beira da estrada, mãos cruzadas
sobre os joelhos. Ana deu alguns passos a esmo. Que droga! Faz uma década que
tínhamos combinado passar a noite na cabana, só a gente e o luar e as
estrelas... e os grilos e os bichos da noite. E agora ele dá para trás? Coisa
que não suportava num homem era frouxidão.
- Qual é seu problema? Tá arrependido?
O vento do entardecer jogou seus cabelos, ela nem
se incomodou em afastá-los. Continuou falando assim oculta pela cortina
castanha.
- Se tá arrependido de não ter voltado com eles,
ainda dá tempo de correr!
- Ana, escuta...
A voz dele ficara mais áspera do que as touceiras
roçando suas pernas na trilha.
- Escute pelo menos uma vez na vida: eu não estou a
fim. Dá pra entender? Não é nada com você, Ana! É este lugar... Parece o fim do
mundo!
Apontou as montanhas para além do descampado.
- Está vendo aquelas nuvens? Vai cair um aguaceiro.
A gente vai se cagar de frio. E pra quê, santo Deus? Pra quê?
- Não estou vendo nada disso! – ela disse. – Essa
mata é perfeita, tá entendendo? A cachoeira logo ali, o riozinho, as árvores...
Você nunca esteve num lugar como este... você é um frouxo!
Pronto! Ela sabia que não ia aguentar sem acabar
falando. A fúria começara a se acumular em sua garganta desde o carro, de
manhãzinha. Matias dormira a viagem inteira. Depois, no acampamento, se recusou
a provar a cachaça de Minas com aquela história de que um parente seu virara
alcoólatra. Ele sempre fora careta daquele jeito? Bom... Agora ela havia
estragado tudo de vez. Ele se afastava rápido, mochila nas costas; cortando
caminho pelo campo, com sorte pensava alcançar o carro da turma.
Ana ficou só. Olhou as nuvens chumbo despontando
por cima da montanha e tingindo caprichosamente o céu. Enrolou-se na manta e
acendeu um cigarro. De costas para a mata, na imensidão, sentiu uma estranha
exaltação ao despontarem as primeiras estrelinhas. O ar era inebriante de tão
vivo, carregado da seiva das plantas e do cocô dos bichos! Respirou fundo. Um
verdadeiro remédio para seus dias cinzentos na repartição, fazendo tarefas sem
sentido no computador.
Aquilo sim, era vida! O verde variegado da mata
começou a assumir um tom uniforme de oliva cada vez mais escuro até se
transformar em contornos de sombra entre terra e céu. As árvores haviam ficado
silenciosas depois que o vento parou. Um cricrilar cada vez mais alto
substituiu o murmúrio das folhas. Começava o período dos insetos; os vegetais,
longe do sol, iam dormir. Ana caminhava lentamente, mata a dentro, apontando a
lanterna. Uma memória de infância: viu-se pela mão do pai entrando num bosque
de pinheiros. Ela erguera a cabeça sem conseguir enxergar o topo e
sentira uma tontura.
- Como são grandes! - E depois, tendo um vislumbre:
- Eu sou tão pequena!
O pai sorriu.
- As árvores são grandes por fora; você é grande
por dentro.
E vendo a perplexidade da menininha:
- Sim, filha! Toda mulher é grande por dentro.
Ai, que falta lhe fez o pai! O velho se sentiria
bem naquele lugar. Não tardou a encontrar a clareira. Lá estava a barraca que
eles haviam montado pela manhã, os restos da fogueira; perto das cinzas, duas
ou três garrafas vazias; e o galho quebrado onde Matias havia pendurado uma
corda para fazer um balanço.
Seus amigos, que decepção. Haviam combinado acampar
no bosque, mas o cair da noite os fez mudar de ideia. Ela devia ter imaginado.
No começo, quando ainda não tinha sido adestrada pelas regras, conversavam
sobre assuntos diversos e Ana argumentava em favor do bom senso: abrir estradas
acaso era mais importante do que deixar as árvores lá? Construir prédios era
mais lógico do que proteger os exíguos espaços verdes? Não eram justamente
esses terrenos vazios, ou ocupados por simpáticas casas de outra época, o bem
mais precioso da cidade? Quê progresso o quê! Muito cedo ela havia aprendido a
calar essas ideias ‘subversivas’. Não que a levassem muito a sério – isso era o
pior! – a ponto de a ameaçarem com alguma punição. Eles somente riam, riam,
como se ela fosse demente. Dementes estavam todos!
A jornada deixou-a acalorada. Ana jogou fora
a manta e começou a pular, excitada pela própria ousadia. Sozinha na mata!
Sozinha na mata!
- Eeeeeeiiii! Eeeeeeiiiii!
Seu grito iria se entranhando e penetrando nos
galhos, nas tocas, nos ninhos que talvez houvesse por ali. Que a floresta
soubesse que ela existia e estava viva! E mais: que era feita da mesma matéria
que toda a natureza, não era estranha por ser humana; não, não era perigosa,
era amiga de tudo e se sentia abraçada por tudo!
- Olê oláááááá...!
Riu da própria infantilidade, dançou e correu em
volta da fogueira extinta, até que se cansou. Bebeu café que havia sobrado na
garrafa térmica, acendeu um cigarro. A lua estava no alto agora, cheia como uma
lâmpada de poste de rua, redonda como costumava desenhá-la na infância,
passando o lápis em torno de uma moeda. Que lindo! Que lindo!
Há pouco havia esquecido Matias e a decepção.
Agora, no silêncio, isso voltava, e uma sombra passou na frente da lua.
Lembrava-se do dia em que se conheceram. Foi na grande enchente no litoral.
Matias, que estava numa temporada de surfe, também tinha ido ajudar os
moradores. Ele a viu entrar na correnteza e trazer um cãozinho ilhado para um
casal de velhos que gritavam por ele, aflitos. Os cabelos de Ana pingavam lama,
Matias ofereceu-lhe uma toalha, rindo:
- Com certeza você não é como essas Barbies que
andam por aí! É de carne e osso, pelo visto. Parabéns!
E os dois foram tomar chocolate quente. Como ele
tinha mudado tanto? Era igual aos Kens, agora.
Seu destino seria ficar sempre sozinha? Por que as
pessoas não compreendiam? Por que eram tão covardes? Ou ela seria louca? Anos
atrás, sua mãe queria que ela disputasse o concurso de miss. “Você leva tanto
jeito, Ana!” Ela ria, subia na moto e saía chispando. A mãe ficava no portão
murmurando: “Ah não, isso não é muito feminino”. Sua mãe sofria, tinha
expectativas. Afinal, todas as mães deste mundo não sofrem com a
individualidade dos filhos? Não é isso justamente que faz a humanidade evoluir?
- O que me importa?
Sentia o coração contente, como se a companhia do
mato o fizesse pulsar melhor. As picuinhas da vida, ali, pareciam tão
insignificantes. Estou em casa, em casa...! Chegava até ela o som abafado da
cascata jorrando... De vez em quando o barulho ritmado da água caindo era
cortado por uma espécie de ronco curto e grave. A floresta é uma verdadeira
orquestra tocando seus mil instrumentos. Ana sentiu os olhos pesados. Apagou o
cigarro e se enfiou no saco de dormir. Logo embarcou em um sono cheio de
sonhos. Uma hora estava com Matias deslizando em altas ondas; logo estava
correndo por uma estrada imensa, para em seguida, sem saber como, ver-se no
cume de um penhasco e pensando, intrigada, como faria para descer de lá. Foi
despertada por um daqueles roncos graves, já não tão curtos nem tão longínquos.
Parecia ser um felino rondando as proximidades. Mas que bobagem! Que felino
vivia tão perto da estrada? Vieram-lhe à mente as brincadeiras dos colegas
quando ela avisou que ia passar a noite na clareira. “Ei, gente! A Ana quer
virar comida de onça!”. Que besteira, pensou. Mas o sono tinha ido embora de
vez. Com a manta nos ombros, Ana saiu da barraca. A garrafa vazia, nada de
café. Ficou bem quieta, ouvindo. Outro rugido mais forte fez seu coração
saltar. Meu Deus! Deve ser onça mesmo!
Seus olhos estavam fixos na galharia escura de onde
parecia vir o rugido. Teve um rompante de iniciativa e começou a juntar galhos
e pequenos troncos numa espécie de barricada. Ficou suada e agitada com o
esforço. Sentou-se e esperou, trêmula. Nenhum som se ouviu por muito tempo. Ana
reacendeu o toco de cigarro. Seu próprio coração no peito parecia uma
locomotiva desgovernada. Ora, dona onça, quer vir? Venha! Venha que eu não
tenho medo da senhora...
A noite se fechara em seu capote preto. Nem
estrelas, nem lua, nem brilhinhos de orvalho... Pois sim. Uma mulher não pode
fazer mesmo nada... Nunca estar sozinha consigo mesma... Sempre obedecer às
regrinhas ridículas... A cabeça de Ana pendeu sobre os braços. Agora ela estava
no centro de uma roda de mulheres jovens e velhas, que cantavam e giravam.
Alguns rostos lhe pareciam familiares, outros nunca vira antes. Dentro do
círculo, Ana não sabia o que devia fazer... Súbito levantou a cabeça,
despertando. Sentiu a presença do animal. Era uma onça e estava bem ali! Em
cima da barricada, a pouco mais de um metro de distância, a onça, imóvel, a
encarava. Oh Deus, ela está ME olhando! O que estará pensando? Em seus olhos
amendoados, o risco preto que os cortava crescia e diminuía, como se
acompanhasse os pensamentos do animal, refletindo. Ah não...! Eu devo ainda
estar sonhando. Foram aquelas mulheres da roda que... Não, isto é real! A onça
não se mexia. Seu olhar era focado, intenso. Olhar de predador para imobilizar
a caça? O rosto da onça era tão expressivo. Dir-se-ia uma mulher triste,
triste... Não, não. Uma mulher que sabe que tudo é irremediavelmente triste, e
mesmo assim vai à luta. As faces da fera estavam pendidas, o olhar miúdo e
líquido... Minha avó me olhava assim! Será que ela também estava se lembrando?
Teria memórias de instinto ancestrais? Ana pensou ver lágrimas brilhando no
canto de seus olhos amarelos; teve vontade de se aproximar, falar com ela. Quis
dizer que a entende, sim; que sendo fêmea, sabe a tristeza e a fome e a alegria
que a vida é... De súbito, a onça arreganhou as faces, mostrando os dentes
poderosos e soltou um rugido que ecoou na mata. Ana protegeu a cabeça com os
braços ao sentir que ela ia pular. E a onça pulou...
Ao levantar a cabeça, Ana pôde ver o animal se
afastando e sumindo entre as árvores do fundo. O pedaço de carne de churrasco
que estava na grelha havia sumido.
O dia amanheceu azul e ensolarado. No celular Ana
viu uma mensagem de Matias: “Te pego na estrada ao meio-dia?” Ela se enfiou
debaixo da cortina de água da cachoeira. Brrrr! Todas as células do seu corpo
acordaram e pularam de gozo e alarme. Perigo e prazer, sonho e comida, o ontem
e o sempre... Nossa! Aquela onça sabia de tudo. Enxugou-se com toda a calma,
divertindo-se com a algazarra dos pássaros. Conseguiu fotografar um enorme
tucano para mostrar à mãe. Depois juntou seus pertences, dobrou a
barraca e deixou um pacote de biscoitos para o caso de a onça voltar. É como um
bilhete meu para ela, pensou. E só então respondeu a mensagem do namorado: OK.
FIM
Imagem: pintura de Marisa C. Barros
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Inspira o desejo profundo e guardado de toda mulher! Viver a aventura de enfrentar o medo numa noite fria no meio da mata!! E ainda encarando uma felina!!! Adorei!
ResponderExcluirQue encontro mágico! “Toda mulher é grande por dentro”.
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