domingo, 14 de julho de 2024

ANA E A ONÇA

 



ANA E A ONÇA

(conto)

 

- Ana, vem com a gente! 

O velho jipe cheio de lama se afastava com a turma.

Ela não tirava os olhos dele, sem compreender aquela repentina expressão de enfado. Como se ficar com ela já não fosse o supremo interesse de sua vida.

- Vamos ficar, Matias! – Ele, só olhando a grama. – Você não quer? A gente volta amanhã cedo.

Ele se sentou na beira da estrada, mãos cruzadas sobre os joelhos. Ana deu alguns passos a esmo. Que droga! Faz uma década que tínhamos combinado passar a noite na cabana, só a gente e o luar e as estrelas... e os grilos e os bichos da noite. E agora ele dá para trás? Coisa que não suportava num homem era frouxidão.

- Qual é seu problema? Tá arrependido?

O vento do entardecer jogou seus cabelos, ela nem se incomodou em afastá-los. Continuou falando assim oculta pela cortina castanha.

- Se tá arrependido de não ter voltado com eles, ainda dá tempo de correr!

- Ana, escuta...

A voz dele ficara mais áspera do que as touceiras roçando suas pernas na trilha.

- Escute pelo menos uma vez na vida: eu não estou a fim. Dá pra entender? Não é nada com você, Ana! É este lugar... Parece o fim do mundo!

Apontou as montanhas para além do descampado.

- Está vendo aquelas nuvens? Vai cair um aguaceiro. A gente vai se cagar de frio. E pra quê, santo Deus? Pra quê?

- Não estou vendo nada disso! – ela disse. – Essa mata é perfeita, tá entendendo? A cachoeira logo ali, o riozinho, as árvores... Você nunca esteve num lugar como este... você é um frouxo!

Pronto! Ela sabia que não ia aguentar sem acabar falando. A fúria começara a se acumular em sua garganta desde o carro, de manhãzinha. Matias dormira a viagem inteira. Depois, no acampamento, se recusou a provar a cachaça de Minas com aquela história de que um parente seu virara alcoólatra. Ele sempre fora careta daquele jeito? Bom... Agora ela havia estragado tudo de vez. Ele se afastava rápido, mochila nas costas; cortando caminho pelo campo, com sorte pensava alcançar o carro da turma. 

Ana ficou só. Olhou as nuvens chumbo despontando por cima da montanha e tingindo caprichosamente o céu. Enrolou-se na manta e acendeu um cigarro. De costas para a mata, na imensidão, sentiu uma estranha exaltação ao despontarem as primeiras estrelinhas. O ar era inebriante de tão vivo, carregado da seiva das plantas e do cocô dos bichos! Respirou fundo. Um verdadeiro remédio para seus dias cinzentos na repartição, fazendo tarefas sem sentido no computador.

Aquilo sim, era vida! O verde variegado da mata começou a assumir um tom uniforme de oliva cada vez mais escuro até se transformar em contornos de sombra entre terra e céu. As árvores haviam ficado silenciosas depois que o vento parou. Um cricrilar cada vez mais alto substituiu o murmúrio das folhas. Começava o período dos insetos; os vegetais, longe do sol, iam dormir. Ana caminhava lentamente, mata a dentro, apontando a lanterna. Uma memória de infância: viu-se pela mão do pai entrando num bosque de pinheiros.  Ela erguera a cabeça sem conseguir enxergar o topo e sentira uma tontura.

- Como são grandes! - E depois, tendo um vislumbre: - Eu sou tão pequena!

O pai sorriu.

- As árvores são grandes por fora; você é grande por dentro.

E vendo a perplexidade da menininha:

- Sim, filha! Toda mulher é grande por dentro.

Ai, que falta lhe fez o pai! O velho se sentiria bem naquele lugar. Não tardou a encontrar a clareira. Lá estava a barraca que eles haviam montado pela manhã, os restos da fogueira; perto das cinzas, duas ou três garrafas vazias; e o galho quebrado onde Matias havia pendurado uma corda para fazer um balanço.

Seus amigos, que decepção. Haviam combinado acampar no bosque, mas o cair da noite os fez mudar de ideia. Ela devia ter imaginado. No começo, quando ainda não tinha sido adestrada pelas regras, conversavam sobre assuntos diversos e Ana argumentava em favor do bom senso: abrir estradas acaso era mais importante do que deixar as árvores lá? Construir prédios era mais lógico do que proteger os exíguos espaços verdes? Não eram justamente esses terrenos vazios, ou ocupados por simpáticas casas de outra época, o bem mais precioso da cidade? Quê progresso o quê! Muito cedo ela havia aprendido a calar essas ideias ‘subversivas’. Não que a levassem muito a sério – isso era o pior! – a ponto de a ameaçarem com alguma punição. Eles somente riam, riam, como se ela fosse demente. Dementes estavam todos!

 A jornada deixou-a acalorada. Ana jogou fora a manta e começou a pular, excitada pela própria ousadia. Sozinha na mata! Sozinha na mata!

- Eeeeeeiiii! Eeeeeeiiiii!

Seu grito iria se entranhando e penetrando nos galhos, nas tocas, nos ninhos que talvez houvesse por ali. Que a floresta soubesse que ela existia e estava viva! E mais: que era feita da mesma matéria que toda a natureza, não era estranha por ser humana; não, não era perigosa, era amiga de tudo e se sentia abraçada por tudo!

- Olê oláááááá...!

Riu da própria infantilidade, dançou e correu em volta da fogueira extinta, até que se cansou. Bebeu café que havia sobrado na garrafa térmica, acendeu um cigarro. A lua estava no alto agora, cheia como uma lâmpada de poste de rua, redonda como costumava desenhá-la na infância, passando o lápis em torno de uma moeda. Que lindo! Que lindo!

Há pouco havia esquecido Matias e a decepção. Agora, no silêncio, isso voltava, e uma sombra passou na frente da lua. Lembrava-se do dia em que se conheceram. Foi na grande enchente no litoral. Matias, que estava numa temporada de surfe, também tinha ido ajudar os moradores. Ele a viu entrar na correnteza e trazer um cãozinho ilhado para um casal de velhos que gritavam por ele, aflitos. Os cabelos de Ana pingavam lama, Matias ofereceu-lhe uma toalha, rindo:

- Com certeza você não é como essas Barbies que andam por aí! É de carne e osso, pelo visto. Parabéns!

E os dois foram tomar chocolate quente. Como ele tinha mudado tanto? Era igual aos Kens, agora.

Seu destino seria ficar sempre sozinha? Por que as pessoas não compreendiam? Por que eram tão covardes? Ou ela seria louca? Anos atrás, sua mãe queria que ela disputasse o concurso de miss. “Você leva tanto jeito, Ana!” Ela ria, subia na moto e saía chispando. A mãe ficava no portão murmurando: “Ah não, isso não é muito feminino”. Sua mãe sofria, tinha expectativas. Afinal, todas as mães deste mundo não sofrem com a individualidade dos filhos? Não é isso justamente que faz a humanidade evoluir?

- O que me importa?

Sentia o coração contente, como se a companhia do mato o fizesse pulsar melhor. As picuinhas da vida, ali, pareciam tão insignificantes. Estou em casa, em casa...! Chegava até ela o som abafado da cascata jorrando... De vez em quando o barulho ritmado da água caindo era cortado por uma espécie de ronco curto e grave. A floresta é uma verdadeira orquestra tocando seus mil instrumentos. Ana sentiu os olhos pesados. Apagou o cigarro e se enfiou no saco de dormir. Logo embarcou em um sono cheio de sonhos. Uma hora estava com Matias deslizando em altas ondas; logo estava correndo por uma estrada imensa, para em seguida, sem saber como, ver-se no cume de um penhasco e pensando, intrigada, como faria para descer de lá. Foi despertada por um daqueles roncos graves, já não tão curtos nem tão longínquos. Parecia ser um felino rondando as proximidades. Mas que bobagem! Que felino vivia tão perto da estrada? Vieram-lhe à mente as brincadeiras dos colegas quando ela avisou que ia passar a noite na clareira. “Ei, gente! A Ana quer virar comida de onça!”. Que besteira, pensou. Mas o sono tinha ido embora de vez. Com a manta nos ombros, Ana saiu da barraca. A garrafa vazia, nada de café. Ficou bem quieta, ouvindo. Outro rugido mais forte fez seu coração saltar. Meu Deus! Deve ser onça mesmo!

Seus olhos estavam fixos na galharia escura de onde parecia vir o rugido. Teve um rompante de iniciativa e começou a juntar galhos e pequenos troncos numa espécie de barricada. Ficou suada e agitada com o esforço. Sentou-se e esperou, trêmula. Nenhum som se ouviu por muito tempo. Ana reacendeu o toco de cigarro. Seu próprio coração no peito parecia uma locomotiva desgovernada. Ora, dona onça, quer vir? Venha! Venha que eu não tenho medo da senhora...

A noite se fechara em seu capote preto. Nem estrelas, nem lua, nem brilhinhos de orvalho... Pois sim. Uma mulher não pode fazer mesmo nada... Nunca estar sozinha consigo mesma... Sempre obedecer às regrinhas ridículas... A cabeça de Ana pendeu sobre os braços. Agora ela estava no centro de uma roda de mulheres jovens e velhas, que cantavam e giravam. Alguns rostos lhe pareciam familiares, outros nunca vira antes. Dentro do círculo, Ana não sabia o que devia fazer... Súbito levantou a cabeça, despertando. Sentiu a presença do animal. Era uma onça e estava bem ali! Em cima da barricada, a pouco mais de um metro de distância, a onça, imóvel, a encarava. Oh Deus, ela está ME olhando! O que estará pensando? Em seus olhos amendoados, o risco preto que os cortava crescia e diminuía, como se acompanhasse os pensamentos do animal, refletindo. Ah não...! Eu devo ainda estar sonhando. Foram aquelas mulheres da roda que... Não, isto é real! A onça não se mexia. Seu olhar era focado, intenso. Olhar de predador para imobilizar a caça? O rosto da onça era tão expressivo. Dir-se-ia uma mulher triste, triste... Não, não. Uma mulher que sabe que tudo é irremediavelmente triste, e mesmo assim vai à luta. As faces da fera estavam pendidas, o olhar miúdo e líquido... Minha avó me olhava assim! Será que ela também estava se lembrando? Teria memórias de instinto ancestrais? Ana pensou ver lágrimas brilhando no canto de seus olhos amarelos; teve vontade de se aproximar, falar com ela. Quis dizer que a entende, sim; que sendo fêmea, sabe a tristeza e a fome e a alegria que a vida é... De súbito, a onça arreganhou as faces, mostrando os dentes poderosos e soltou um rugido que ecoou na mata. Ana protegeu a cabeça com os braços ao sentir que ela ia pular. E a onça pulou... 

Ao levantar a cabeça, Ana pôde ver o animal se afastando e sumindo entre as árvores do fundo. O pedaço de carne de churrasco que estava na grelha havia sumido.

O dia amanheceu azul e ensolarado. No celular Ana viu uma mensagem de Matias: “Te pego na estrada ao meio-dia?” Ela se enfiou debaixo da cortina de água da cachoeira. Brrrr! Todas as células do seu corpo acordaram e pularam de gozo e alarme. Perigo e prazer, sonho e comida, o ontem e o sempre... Nossa! Aquela onça sabia de tudo. Enxugou-se com toda a calma, divertindo-se com a algazarra dos pássaros. Conseguiu fotografar um enorme tucano para mostrar à mãe.  Depois juntou seus pertences, dobrou a barraca e deixou um pacote de biscoitos para o caso de a onça voltar. É como um bilhete meu para ela, pensou. E só então respondeu a mensagem do namorado: OK.

 FIM


Imagem: pintura de Marisa C. Barros

Para ver todas as postagens, clique em:  https://tesskuano.blogspot. com




2 comentários:

  1. Inspira o desejo profundo e guardado de toda mulher! Viver a aventura de enfrentar o medo numa noite fria no meio da mata!! E ainda encarando uma felina!!! Adorei!

    ResponderExcluir
  2. Que encontro mágico! “Toda mulher é grande por dentro”.

    ResponderExcluir