sexta-feira, 19 de julho de 2024

A HORTA

 A HORTA 

(crônica ficcional)


Vida da gente é igual à horta da comunidade. Numa época tinha uma fartura, era todo o tipo de ervas de tempero: alecrim, manjericão, sálvia, cominho, salsa, manjerona e não sei o que mais. E tinha os canteiros de lavanda, e os de tomatinhos, além das ervas de chá: poejo,  macela, boldo, hortelã... Ainda vejo que beleza de horta a gente tinha lá. Mas as plantas foram minguando, acabando por elas mesmas e ninguém repunha. Uma senhora japonesa foi que plantou, e toda manhã ia lá cuidar. Ela ensinava a mulherada, comprava as sementes,  ensinava a plantar. Todo o mundo colhia, e quanto mais a gente tirava as folhas, mais os canteiros se enchiam. Mas a japonesa foi embora pro interior morar com o filho. A horta foi pouco a pouco rareando. Como a vida da gente...! Antigamente eu tinha um montão de verduras diferentes, coisas que eu fazia, lugares, pessoas... Minha vida era cheia do que colher, de diverso sabor. Pois foi tudo rareando devagar, agora o que tem é só o que resistiu e endureceu, fincou raiz no chão e ocupou a terra esvaziada pelas outras coisas que morreram. Que nem o manjericão na horta: cresceu e aumentou, está uma touceira! Pudera! Não tem mais nada do lado. Manjericão na minha vida é a atividade na igreja como voluntária; foi o que me ficou dos tantos afazeres que eu tinha. Pensar que já fui cantora na minha mocidade! Cantava em dupla com a Martina, nas festas da igreja da minha cidade. Ela tocava violão e nós tínhamos as vozes que se completavam no tom. O pessoal aplaudia muito, até nos convidaram pra gravar um disco. A Martina estava me ensinando a tocar violão,  mas aí ela morreu de pneumonia e eu nunca mais quis saber de música... Tive a época também de família grande. Quando meu Moacir era vivo nossa casa era movimentada; ele arrumava umas rodas e vinha muita gente. Os netos eram pequenos,  gostavam de passar férias na comunidade, estavam sempre aqui em casa. Agora eles estão crescidos e vêm me ver só antes do Natal. Trazem alguma lembrança, uma louça, um vidro de perfume. Depois não os vejo mais o ano todo. Canteiro que quase secou. Também tive meu sucesso na igreja com as crianças, ensinando costura, crochê, bordado, essas coisas. As crianças naquela época se esforçavam, elas faziam trabalhos muito bons. No fim do semestre fazíamos exposição.  Era um orgulho pros pais, pra elas e pra mim que era uma espécie de professora de quem todos gostavam. Agora... Olha a terra secando, as plantações murchando. De vez em quando eu ainda encontrava algum tomate vermelhinho: era quando tinha excursão da igreja com a turma pra alguma cidade bonita, em dias de festa. Outro dia fui ver, tomateiro não tem mais. Passeios meus não tem mais. Às vezes eu acordo cedo, ainda está escuro, então fico sonhando acordada, pensando que bom seria uma chuvarada incomum, que fizesse a minha horta reflorescer toda. Isso seria como entrar numa fonte da juventude. O que nasceria outra vez? Um namorado! Eu o vejo chegando viril e bem ajeitado e com cheiro de loção após barba. E eu que estou no banho, grito: "Entra!" e chego na sala faceira, com a toalha enrolada no cabelo e outra no corpo... Porque a minha vaidade de mulher renasce com aquela chuva mágica. E eu via o modo como ele me olhava... Ai! eu via de novo aquele olhar todo derretido de desejo que me dava outra vez o calor e um quase desfalecimento... Ah, mas os canteiros duma horta crescem sozinhos só até um certo ponto, contando com sol e chuva e terra... Eles também têm seu tempo de vida útil,  depois do quê, se ninguém os colher eles vão secando, secando... Precisaria vir a japonesa, plantar novas sementes,  revirar esta terra dura, botar alguma vitamina no solo... E se eu replantasse as ervas da minha vida? Seria possível? Com esforço, quem sabe, levantando cedo e trabalhando duro, e pedindo umas mudas aqui e ali, e aprendendo e... Hoje o dia está tão quente, não parece ter sinal de chuva. Não parece muito provável que a horta comece de novo... Ah! Vou ficar sentada bem aqui, quentando o sol.

FIM

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