segunda-feira, 29 de julho de 2024

HIPERFOCO, o gerenciamento da atenção

 

Baseado no livro Hiperfoco, de Chris Bailey[i].

 


Para começar a falar sobre o livro, noto que o subtítulo não faz jus ao conteúdo: "Como trabalhar menos e render mais". Parece um manual para executivos focados em produtividade. Na verdade, é muito mais do que isso. Há um comentário na contracapa que bem poderia ser o subtítulo e que eu gostaria de tomar como núcleo para esta resenha:

"Tornar-se mais produtivo não tem a ver com gerenciamento do tempo, mas sim com gerenciamento da atenção” (Adam Grant).

Quem estudou algo sobre o Quarto Caminho, um ensinamento milenar traduzido para a mente ocidental por G.I.Gurdjieff e P.Ouspenski na primeira metade do século XX, entende que uma evolução real do ser humano só é possível através do trabalho interior, e que esse trabalho conjuga basicamente um esforço de autoconhecimento e o desenvolvimento de uma vontade real, que nada tem a ver com desejos. Ora, seguir um trabalho interior só é possível por meio de um gerenciamento eficiente da atenção. E, surpresa! Atenção é o artigo mais em falta nesta época cheia de estímulos em que vivemos. Como, então, trabalhar interiormente no sentido de tornar-se o Eu Real e cumprir nossos desígnios, ao invés de passar a vida adormecidos?

A atenção é o nosso instrumento primordial, é o nosso polegar opositor, o que verdadeiramente nos distingue dos animais. Nesse sentido, o livro de Chris Bailey não é apenas um manual para gerenciar melhor as tarefas da empresa e ser mais produtivo. Ele abrange muito mais que a esfera meramente profissional. Saber gerenciar o foco da nossa atenção é indispensável para desenvolver nossos potenciais e metas de vida, e assim crescer como indivíduos.

É nessa direção que me propus a dar uma pequena amostra do que trata o livro, dentro do meu aproveitamento pessoal. Espero que ele possa atingir muitas pessoas com a luz que trouxe para meu próprio modo de pensar.

***

Nossa vida é constituída por aquilo em que pomos nossa atenção. E o que nos impede de colocar nossa atenção naquilo que é bom para nós, para o nosso trabalho, nossa saúde, nossos relacionamentos? Enfim, para nossas metas na vida? A verdade é que nossa atenção tem a qualidade de uma borboleta, que vai para onde quer, sem foco nem constância. Certamente existe um propósito para a borboleta pousar de flor em flor para obter todo o néctar que puder: esse é o seu foco mais eficiente. Mas para nós, humanos, saltar de uma tarefa a outra, de uma distração a outra nos deixa com uma sensação de frustração por não conseguirmos concluir nada. Sentimos que nosso potencial está sendo desperdiçado e, como a vida é uma só, nossa vida está sendo desperdiçada.

O mais dramático dessa situação é que hoje em dia ela é a base comum em que todos nos movemos, não importa qual seja nossa ocupação. Nossos smartphones, as plataformas de multimídias, as ofertas de diversão tão valorizadas para nossa inserção nos grupos sociais - tudo isso sequestra nossa atenção o tempo todo. Quando nos lembramos do que queríamos ou pretendíamos fazer, dizemos que "não temos tempo".

O livro de Bailey vem nos mostrar algo muito simples, mas fundamental como o ovo de Colombo.

Pensemos quantas vezes, quando estamos nos divertindo ou simplesmente relaxando, nos cobramos por não estar fazendo algo útil? E quantas vezes, na mão contrária, lamentamos o tempo que temos de trabalhar ao invés de tirarmos umas boas férias, fazer algo agradável ou ficar no ócio? Somos assim mesmo, nunca estamos plenos naquilo que fazemos. Mas isso é pelo fato de não entendermos em qual modo nossa atenção está. O autor de Hiperfoco afirma que temos dois tipos principais de foco: o Hiperfoco, que é como ele chama a concentração num dado assunto, trabalho, situação, etc., e o Foco Disperso, que é o modo de atenção vaga, ou distribuída, digamos, por aquilo que acontece à nossa volta ou no nosso interior, sem um alvo definido. Assim, trabalhar é estar no hiperfoco; divagar é estar no foco disperso.

É fácil exemplificar. Enquanto escrevo esta resenha estou em Hiperfoco, concentrada nas ideias que absorvi e que poderão traduzir o essencial do livro para quem não o tiver lido. Daqui a pouco vou me sentar para almoçar na companhia de alguém, certamente vamos apreciar a comida, o ambiente, conversar sem objetivo, ouvir música. Eu então estarei no modo que o autor chamou de Foco Disperso. Parece óbvio, mas antes de poder gerenciar é preciso reconhecer claramente o modo de funcionamento da nossa mente. Isso significa estar presente, viver no presente, que é, em última instância, o único significado de estar vivo. Só nos lembramos daqueles momentos em que estivemos presentes, conscientes de nós.

Grande parte do livro é dedicado a conselhos e dicas para ficar em Hiperfoco, driblando as distrações. Num estilo popular, Bailey vai desfiando estratégias, como deixar o telefone celular fora da sala de trabalho, ou no modo avião, para não ser interrompido por mensagens, e-mails e publicidade; permitir-se pausas para recarregar as energias mentais e outras. Nada de muito novo, a não ser algo fundamental: precisamos nos planejar. Nosso cérebro tem uma capacidade enorme de desempenho se o mandamos fazer algo. Uma mente ociosa vai naturalmente vagar ou andar em círculos, como, perdoem a comparação, um cachorro sem dono. Determinar para nós mesmos o que vamos fazer, e em que horário vamos fazer, é o começo de uma nova vida, menos frustrante e mais satisfatória.

Mas é sobre o  desprestigiado Foco Disperso que recebemos uma grande notícia. Somente quando não for intencional é que ele será nocivo ou pura perda de tempo. Lembram-se dos antigos aconselhamentos de ter “pensamento positivo”? Penso que era isso o que se estava intuindo, mas ainda sem entender que o pensamento positivo ou negativo se referia ao Foco Disperso. Bailey faz essa distinção, mostrando que nem toda divagação é inútil. Pelo contrário, ele mostra o quanto necessitamos desses momentos de foco disperso. Às vezes é nesse foco que enxergamos num relance a solução de problemas que parecíamos não ver quando estávamos debruçados sobre eles. É no Foco Disperso também que as ideias isoladas se conectam em nossa mente, solidificam nosso conhecimento e formam as bases para a criatividade. Nunca mais o tal diabinho em nosso ombro direito vai nos criticar por obedecer ao do ombro esquerdo e sair para dar uma longa caminhada na natureza, sem motivo ou razão aparente, simplesmente por... nada. Aliás, já repararam como, agora que temos uma câmera fotográfica disponível no celular, não resistimos à tentação de fotografar tudo o que vemos durante nossas atividades no modo Foco Disperso? Não será um meio subconsciente para tentar justificar nosso ócio, dizendo a nós mesmos que temos, sim, uma finalidade? No nosso mundo distorcido, tudo parece só ter sentido se produzir algo, como uma foto para postar. Perdemos nossa capacidade de simplesmente sentir as coisas. Ao dar um passeio com a intenção de relaxar, por exemplo, ou de conhecer o lugar, ou de movimentar o corpo, estarei no modo Foco Disperso, mas motivado.  Dessa forma despreocupada, posso me manter intencionalmente conectada com as impressões que estiver recebendo do ambiente ou com meus próprios pensamentos, sentimentos e sensações. É quase uma forma de meditação.

O Foco Disperso pode, e deve, portanto, ser buscado intencionalmente. Ele é também uma poderosa fonte de recarga das nossas energias mentais. Há muitas coisas geralmente prazerosas que fazemos nesse foco: passeios, todo tipo de lazer, música, conversas, um hobby, uma leitura, e assim por diante. Tudo isso que é fundamental para nossa saúde mental, também vai determinar, na outra ponta, a boa qualidade do nosso trabalho em Hiperfoco. Como se os dois tipos de focos correspondessem à respiração. No Foco Disperso você recebe impressões e energia – é a inspiração. No Hiperfoco você expressa o resultado das conexões feitas em sua mente na forma de um trabalho – é a expiração.

Outra noção interessante do livro é a de “espaço atencional”. O que é isso? É tudo o que habita nossa mente num determinado momento, quer sejam impressões recentes ou informações já cristalizadas na forma de conhecimento. Nesse sentido, fazer muitas coisas em Foco Disperso tende a aumentar muito a abrangência do nosso espaço atencional, o qual estará muito mais recheado de coisas úteis que vamos necessitar na hora de fazer nosso trabalho em Hiperfoco. Percebeu a importância de ler, estudar, viajar? Tudo vai estar lá no seu espaço atencional quando precisar. Por outro lado, Bailey diz uma frase que grifei com lápis em meu livro: gente bem-sucedida cuida muito bem do que deixar ou não deixar entrar em seu espaço atencional. Se não queremos ter lixo em nossa casa, vamos deixar que entre lixo em nossa mente?

Por fim, recomendo a leitura para um aproveitamento mais didático das ideias de Bailey. Quantas horas e em que período vou me dedicar hoje a meu trabalho em Hiperfoco? Quais períodos dedicarei a atividades em Foco Disperso? Planejar o nosso dia ou nossa semana levando em conta em qual modo de foco estaremos nesta ou naquela tarefa é o princípio de um trabalho de organização interna. Sem ela, corremos o risco de chegar ao final da vida sentindo que carregamos um balde furado e não conseguimos transportar nada. O balde é a nossa atenção.

 

FIM

 Crédito da imagem: Edgardo K.


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[i] Bailey, Chris - Hiperfoco, editora Benvirá


sexta-feira, 19 de julho de 2024

A HORTA

 A HORTA 

(crônica ficcional)


Vida da gente é igual à horta da comunidade. Numa época tinha uma fartura, era todo o tipo de ervas de tempero: alecrim, manjericão, sálvia, cominho, salsa, manjerona e não sei o que mais. E tinha os canteiros de lavanda, e os de tomatinhos, além das ervas de chá: poejo,  macela, boldo, hortelã... Ainda vejo que beleza de horta a gente tinha lá. Mas as plantas foram minguando, acabando por elas mesmas e ninguém repunha. Uma senhora japonesa foi que plantou, e toda manhã ia lá cuidar. Ela ensinava a mulherada, comprava as sementes,  ensinava a plantar. Todo o mundo colhia, e quanto mais a gente tirava as folhas, mais os canteiros se enchiam. Mas a japonesa foi embora pro interior morar com o filho. A horta foi pouco a pouco rareando. Como a vida da gente...! Antigamente eu tinha um montão de verduras diferentes, coisas que eu fazia, lugares, pessoas... Minha vida era cheia do que colher, de diverso sabor. Pois foi tudo rareando devagar, agora o que tem é só o que resistiu e endureceu, fincou raiz no chão e ocupou a terra esvaziada pelas outras coisas que morreram. Que nem o manjericão na horta: cresceu e aumentou, está uma touceira! Pudera! Não tem mais nada do lado. Manjericão na minha vida é a atividade na igreja como voluntária; foi o que me ficou dos tantos afazeres que eu tinha. Pensar que já fui cantora na minha mocidade! Cantava em dupla com a Martina, nas festas da igreja da minha cidade. Ela tocava violão e nós tínhamos as vozes que se completavam no tom. O pessoal aplaudia muito, até nos convidaram pra gravar um disco. A Martina estava me ensinando a tocar violão,  mas aí ela morreu de pneumonia e eu nunca mais quis saber de música... Tive a época também de família grande. Quando meu Moacir era vivo nossa casa era movimentada; ele arrumava umas rodas e vinha muita gente. Os netos eram pequenos,  gostavam de passar férias na comunidade, estavam sempre aqui em casa. Agora eles estão crescidos e vêm me ver só antes do Natal. Trazem alguma lembrança, uma louça, um vidro de perfume. Depois não os vejo mais o ano todo. Canteiro que quase secou. Também tive meu sucesso na igreja com as crianças, ensinando costura, crochê, bordado, essas coisas. As crianças naquela época se esforçavam, elas faziam trabalhos muito bons. No fim do semestre fazíamos exposição.  Era um orgulho pros pais, pra elas e pra mim que era uma espécie de professora de quem todos gostavam. Agora... Olha a terra secando, as plantações murchando. De vez em quando eu ainda encontrava algum tomate vermelhinho: era quando tinha excursão da igreja com a turma pra alguma cidade bonita, em dias de festa. Outro dia fui ver, tomateiro não tem mais. Passeios meus não tem mais. Às vezes eu acordo cedo, ainda está escuro, então fico sonhando acordada, pensando que bom seria uma chuvarada incomum, que fizesse a minha horta reflorescer toda. Isso seria como entrar numa fonte da juventude. O que nasceria outra vez? Um namorado! Eu o vejo chegando viril e bem ajeitado e com cheiro de loção após barba. E eu que estou no banho, grito: "Entra!" e chego na sala faceira, com a toalha enrolada no cabelo e outra no corpo... Porque a minha vaidade de mulher renasce com aquela chuva mágica. E eu via o modo como ele me olhava... Ai! eu via de novo aquele olhar todo derretido de desejo que me dava outra vez o calor e um quase desfalecimento... Ah, mas os canteiros duma horta crescem sozinhos só até um certo ponto, contando com sol e chuva e terra... Eles também têm seu tempo de vida útil,  depois do quê, se ninguém os colher eles vão secando, secando... Precisaria vir a japonesa, plantar novas sementes,  revirar esta terra dura, botar alguma vitamina no solo... E se eu replantasse as ervas da minha vida? Seria possível? Com esforço, quem sabe, levantando cedo e trabalhando duro, e pedindo umas mudas aqui e ali, e aprendendo e... Hoje o dia está tão quente, não parece ter sinal de chuva. Não parece muito provável que a horta comece de novo... Ah! Vou ficar sentada bem aqui, quentando o sol.

FIM

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domingo, 14 de julho de 2024

ANA E A ONÇA

 



ANA E A ONÇA

(conto)

 

- Ana, vem com a gente! 

O velho jipe cheio de lama se afastava com a turma.

Ela não tirava os olhos dele, sem compreender aquela repentina expressão de enfado. Como se ficar com ela já não fosse o supremo interesse de sua vida.

- Vamos ficar, Matias! – Ele, só olhando a grama. – Você não quer? A gente volta amanhã cedo.

Ele se sentou na beira da estrada, mãos cruzadas sobre os joelhos. Ana deu alguns passos a esmo. Que droga! Faz uma década que tínhamos combinado passar a noite na cabana, só a gente e o luar e as estrelas... e os grilos e os bichos da noite. E agora ele dá para trás? Coisa que não suportava num homem era frouxidão.

- Qual é seu problema? Tá arrependido?

O vento do entardecer jogou seus cabelos, ela nem se incomodou em afastá-los. Continuou falando assim oculta pela cortina castanha.

- Se tá arrependido de não ter voltado com eles, ainda dá tempo de correr!

- Ana, escuta...

A voz dele ficara mais áspera do que as touceiras roçando suas pernas na trilha.

- Escute pelo menos uma vez na vida: eu não estou a fim. Dá pra entender? Não é nada com você, Ana! É este lugar... Parece o fim do mundo!

Apontou as montanhas para além do descampado.

- Está vendo aquelas nuvens? Vai cair um aguaceiro. A gente vai se cagar de frio. E pra quê, santo Deus? Pra quê?

- Não estou vendo nada disso! – ela disse. – Essa mata é perfeita, tá entendendo? A cachoeira logo ali, o riozinho, as árvores... Você nunca esteve num lugar como este... você é um frouxo!

Pronto! Ela sabia que não ia aguentar sem acabar falando. A fúria começara a se acumular em sua garganta desde o carro, de manhãzinha. Matias dormira a viagem inteira. Depois, no acampamento, se recusou a provar a cachaça de Minas com aquela história de que um parente seu virara alcoólatra. Ele sempre fora careta daquele jeito? Bom... Agora ela havia estragado tudo de vez. Ele se afastava rápido, mochila nas costas; cortando caminho pelo campo, com sorte pensava alcançar o carro da turma. 

Ana ficou só. Olhou as nuvens chumbo despontando por cima da montanha e tingindo caprichosamente o céu. Enrolou-se na manta e acendeu um cigarro. De costas para a mata, na imensidão, sentiu uma estranha exaltação ao despontarem as primeiras estrelinhas. O ar era inebriante de tão vivo, carregado da seiva das plantas e do cocô dos bichos! Respirou fundo. Um verdadeiro remédio para seus dias cinzentos na repartição, fazendo tarefas sem sentido no computador.

Aquilo sim, era vida! O verde variegado da mata começou a assumir um tom uniforme de oliva cada vez mais escuro até se transformar em contornos de sombra entre terra e céu. As árvores haviam ficado silenciosas depois que o vento parou. Um cricrilar cada vez mais alto substituiu o murmúrio das folhas. Começava o período dos insetos; os vegetais, longe do sol, iam dormir. Ana caminhava lentamente, mata a dentro, apontando a lanterna. Uma memória de infância: viu-se pela mão do pai entrando num bosque de pinheiros.  Ela erguera a cabeça sem conseguir enxergar o topo e sentira uma tontura.

- Como são grandes! - E depois, tendo um vislumbre: - Eu sou tão pequena!

O pai sorriu.

- As árvores são grandes por fora; você é grande por dentro.

E vendo a perplexidade da menininha:

- Sim, filha! Toda mulher é grande por dentro.

Ai, que falta lhe fez o pai! O velho se sentiria bem naquele lugar. Não tardou a encontrar a clareira. Lá estava a barraca que eles haviam montado pela manhã, os restos da fogueira; perto das cinzas, duas ou três garrafas vazias; e o galho quebrado onde Matias havia pendurado uma corda para fazer um balanço.

Seus amigos, que decepção. Haviam combinado acampar no bosque, mas o cair da noite os fez mudar de ideia. Ela devia ter imaginado. No começo, quando ainda não tinha sido adestrada pelas regras, conversavam sobre assuntos diversos e Ana argumentava em favor do bom senso: abrir estradas acaso era mais importante do que deixar as árvores lá? Construir prédios era mais lógico do que proteger os exíguos espaços verdes? Não eram justamente esses terrenos vazios, ou ocupados por simpáticas casas de outra época, o bem mais precioso da cidade? Quê progresso o quê! Muito cedo ela havia aprendido a calar essas ideias ‘subversivas’. Não que a levassem muito a sério – isso era o pior! – a ponto de a ameaçarem com alguma punição. Eles somente riam, riam, como se ela fosse demente. Dementes estavam todos!

 A jornada deixou-a acalorada. Ana jogou fora a manta e começou a pular, excitada pela própria ousadia. Sozinha na mata! Sozinha na mata!

- Eeeeeeiiii! Eeeeeeiiiii!

Seu grito iria se entranhando e penetrando nos galhos, nas tocas, nos ninhos que talvez houvesse por ali. Que a floresta soubesse que ela existia e estava viva! E mais: que era feita da mesma matéria que toda a natureza, não era estranha por ser humana; não, não era perigosa, era amiga de tudo e se sentia abraçada por tudo!

- Olê oláááááá...!

Riu da própria infantilidade, dançou e correu em volta da fogueira extinta, até que se cansou. Bebeu café que havia sobrado na garrafa térmica, acendeu um cigarro. A lua estava no alto agora, cheia como uma lâmpada de poste de rua, redonda como costumava desenhá-la na infância, passando o lápis em torno de uma moeda. Que lindo! Que lindo!

Há pouco havia esquecido Matias e a decepção. Agora, no silêncio, isso voltava, e uma sombra passou na frente da lua. Lembrava-se do dia em que se conheceram. Foi na grande enchente no litoral. Matias, que estava numa temporada de surfe, também tinha ido ajudar os moradores. Ele a viu entrar na correnteza e trazer um cãozinho ilhado para um casal de velhos que gritavam por ele, aflitos. Os cabelos de Ana pingavam lama, Matias ofereceu-lhe uma toalha, rindo:

- Com certeza você não é como essas Barbies que andam por aí! É de carne e osso, pelo visto. Parabéns!

E os dois foram tomar chocolate quente. Como ele tinha mudado tanto? Era igual aos Kens, agora.

Seu destino seria ficar sempre sozinha? Por que as pessoas não compreendiam? Por que eram tão covardes? Ou ela seria louca? Anos atrás, sua mãe queria que ela disputasse o concurso de miss. “Você leva tanto jeito, Ana!” Ela ria, subia na moto e saía chispando. A mãe ficava no portão murmurando: “Ah não, isso não é muito feminino”. Sua mãe sofria, tinha expectativas. Afinal, todas as mães deste mundo não sofrem com a individualidade dos filhos? Não é isso justamente que faz a humanidade evoluir?

- O que me importa?

Sentia o coração contente, como se a companhia do mato o fizesse pulsar melhor. As picuinhas da vida, ali, pareciam tão insignificantes. Estou em casa, em casa...! Chegava até ela o som abafado da cascata jorrando... De vez em quando o barulho ritmado da água caindo era cortado por uma espécie de ronco curto e grave. A floresta é uma verdadeira orquestra tocando seus mil instrumentos. Ana sentiu os olhos pesados. Apagou o cigarro e se enfiou no saco de dormir. Logo embarcou em um sono cheio de sonhos. Uma hora estava com Matias deslizando em altas ondas; logo estava correndo por uma estrada imensa, para em seguida, sem saber como, ver-se no cume de um penhasco e pensando, intrigada, como faria para descer de lá. Foi despertada por um daqueles roncos graves, já não tão curtos nem tão longínquos. Parecia ser um felino rondando as proximidades. Mas que bobagem! Que felino vivia tão perto da estrada? Vieram-lhe à mente as brincadeiras dos colegas quando ela avisou que ia passar a noite na clareira. “Ei, gente! A Ana quer virar comida de onça!”. Que besteira, pensou. Mas o sono tinha ido embora de vez. Com a manta nos ombros, Ana saiu da barraca. A garrafa vazia, nada de café. Ficou bem quieta, ouvindo. Outro rugido mais forte fez seu coração saltar. Meu Deus! Deve ser onça mesmo!

Seus olhos estavam fixos na galharia escura de onde parecia vir o rugido. Teve um rompante de iniciativa e começou a juntar galhos e pequenos troncos numa espécie de barricada. Ficou suada e agitada com o esforço. Sentou-se e esperou, trêmula. Nenhum som se ouviu por muito tempo. Ana reacendeu o toco de cigarro. Seu próprio coração no peito parecia uma locomotiva desgovernada. Ora, dona onça, quer vir? Venha! Venha que eu não tenho medo da senhora...

A noite se fechara em seu capote preto. Nem estrelas, nem lua, nem brilhinhos de orvalho... Pois sim. Uma mulher não pode fazer mesmo nada... Nunca estar sozinha consigo mesma... Sempre obedecer às regrinhas ridículas... A cabeça de Ana pendeu sobre os braços. Agora ela estava no centro de uma roda de mulheres jovens e velhas, que cantavam e giravam. Alguns rostos lhe pareciam familiares, outros nunca vira antes. Dentro do círculo, Ana não sabia o que devia fazer... Súbito levantou a cabeça, despertando. Sentiu a presença do animal. Era uma onça e estava bem ali! Em cima da barricada, a pouco mais de um metro de distância, a onça, imóvel, a encarava. Oh Deus, ela está ME olhando! O que estará pensando? Em seus olhos amendoados, o risco preto que os cortava crescia e diminuía, como se acompanhasse os pensamentos do animal, refletindo. Ah não...! Eu devo ainda estar sonhando. Foram aquelas mulheres da roda que... Não, isto é real! A onça não se mexia. Seu olhar era focado, intenso. Olhar de predador para imobilizar a caça? O rosto da onça era tão expressivo. Dir-se-ia uma mulher triste, triste... Não, não. Uma mulher que sabe que tudo é irremediavelmente triste, e mesmo assim vai à luta. As faces da fera estavam pendidas, o olhar miúdo e líquido... Minha avó me olhava assim! Será que ela também estava se lembrando? Teria memórias de instinto ancestrais? Ana pensou ver lágrimas brilhando no canto de seus olhos amarelos; teve vontade de se aproximar, falar com ela. Quis dizer que a entende, sim; que sendo fêmea, sabe a tristeza e a fome e a alegria que a vida é... De súbito, a onça arreganhou as faces, mostrando os dentes poderosos e soltou um rugido que ecoou na mata. Ana protegeu a cabeça com os braços ao sentir que ela ia pular. E a onça pulou... 

Ao levantar a cabeça, Ana pôde ver o animal se afastando e sumindo entre as árvores do fundo. O pedaço de carne de churrasco que estava na grelha havia sumido.

O dia amanheceu azul e ensolarado. No celular Ana viu uma mensagem de Matias: “Te pego na estrada ao meio-dia?” Ela se enfiou debaixo da cortina de água da cachoeira. Brrrr! Todas as células do seu corpo acordaram e pularam de gozo e alarme. Perigo e prazer, sonho e comida, o ontem e o sempre... Nossa! Aquela onça sabia de tudo. Enxugou-se com toda a calma, divertindo-se com a algazarra dos pássaros. Conseguiu fotografar um enorme tucano para mostrar à mãe.  Depois juntou seus pertences, dobrou a barraca e deixou um pacote de biscoitos para o caso de a onça voltar. É como um bilhete meu para ela, pensou. E só então respondeu a mensagem do namorado: OK.

 FIM


Imagem: pintura de Marisa C. Barros

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