(conto)
FUGA
PARA CASA
Márcia C. Kondratiuk
As
três meninas, mascaradas com os restos do carnaval, saem para a rua sem fazer
ruído. Vão soturnas e esperançadas. Tiavó ainda ressonava nos braços da sesta e
sua respiração era como um zumbido de abelhas. Encostaram o portãozinho. Passaram
invisíveis entre os pedestres e alcançaram num pulo a estrada comprida que
levava para fora do povoado, para umas casas bonitas que elas haviam visitado alguma
vez – ou teria sido num sonho? A ideia que havia brotado de Mocinha, a mais
velha, era o fio de teia em que elas se penduravam: o pai podia estar lá.
Os
cascalhos machucavam os pés de Ciganinha, a caçula, e ela começou a
choramingar. Santinha esticou os braços para levantá-la, mas Mocinha teve ideia
diferente. Recolheram-se à sombra de uma árvore grande. Santinha tirou de um
saquinho os biscoitos que roubara da mesa de Tiavó. Mastigaram olhando o pó da
estrada que voava a cada carro que passava.
-
Mocinha - falou a menor - Onde está a mãe? E a bebê? Estão lá também?
Apontou
para os telhados vermelhos ao longe.
-
Não, Ciganinha. A mãe está doente. Tiavó falou.
-
A gente não vai mais ver ela? - Ciganinha fez cara de choro.
Mocinha
se levantou, encarou as outras:
-
O que eu sei é que nós temos que achar o pai. Daí ele vai procurar a mãe e a bebê.
-
É, ele sabe das coisas. – concordou Ciganinha.
-
Mas será que ele ainda está lá? – disse Santinha, apontando para a vila no
horizonte - Do que você se lembra?
-
Não sei direito. Eu era muito criança - disse Mocinha.
-
Você ainda “é” criança.
-
Mas me lembro da casa, da mãe e do pai. E tinha uma festa...
-
Festa? - os olhos de Ciganinha brilharam.
-
Sim. Tinha bandeirinhas e uma fogueira. O pai cantava e dançava com os outros.
E daí ele se machucou com um rojão.
-
O que é isso?
-
É um tipo de uma bomba que a pessoa pega na mão e solta. Ela pode explodir na
sua mão.
-
Bom... - Santinha se levantou e limpou a terra do vestido - Melhor a gente ir
logo.
...
-
Olha lá! Um cavalo mágico!
O
homem da carroça parou ao seu sinal e concordou em deixá-las um pouco mais
adiante. Santinha pensou que deviam pagar a corrida, mesmo o homem tendo um
cavalo branco mágico. Abriu seu saquinho e tirou do fundo umas balas. O homem
aceitou e se foi.
-
E agora?
As
ruas da vila eram embaralhadas e tortas. Para atrapalhar mais, os carros não
paravam de passar.
-
Estamos perdidas - falou Mocinha - Nunca vamos achar nossa casa onde o pai deve
estar ainda.
-
Mas você não se lembra que a gente mudou? - disse Santinha - A nossa casa era
outra.
-
É sim - disse Ciganinha - A casa de agora tem um poço no quintal.
-
Não, boba! - disse Mocinha - Essa casa de agora é onde mora a Tiavó.
-
Precisamos encontrar a nossa casa - cismou Santinha.
-
E a nossa família... - chorou Ciganinha.
-
Sim... E aí vai ficar tudo bem! - capitulou Mocinha, juntando-se a elas nas
lágrimas.
...
-
Pode se sentar – disse ele.
-
Venho dar parte do sumiço das minhas sobrinhas – disse a mulher, nervosa.
-
Calma, vovó. Eu faço as perguntas e a senhora responde. Seu nome e endereço?
-
Mas é urgente! As meninas são pequenas e não estão acostumadas a andar pela rua
sozinhas.
O
oficial pousou a caneta.
-
E por que a senhora deixou que elas saíssem?
-
Eu não deixei! Elas fugiram.
-
Sei... Devem ter tido motivo pra fugir da senhora, ou não?
-
De mim? Deus me livre! Está desconfiando que judiei das crianças? Não! Eu estou
tomando conta delas até a mãe sair do hospital... Elas não têm mais nenhum
parente.
-
E o pai das garotas?
Tiavó,
cujo nome no depoimento era Maria das Dores Bonifácio, a última coisa que
desejava era contar para aquele sujeito o que havia acontecido com as meninas. Em
sua cabeça, tratava-se de um fato que até mesmo sussurrado a algum santo, na
igreja, corria o risco de parecer profanação e insensibilidade. Mas não havia
outro jeito.
-
Não vê que o pai delas, meu sobrinho, acabou de morrer. Estava na flor da idade...
O
oficial esperava, tamborilando com a caneta.
-
Sérgio viajou para uma cerimônia em outra cidade. Parece que foi receber um
prêmio. Ele era jornalista... – Tiavó engasgou, prosseguiu. - Vinha voltando
com a esposa, o carro derrapou e... Enfim. Não se salvou. A esposa ainda está
no hospital.
-
E a senhora ficou tomando conta das três filhas?
-
Eu sou a única parente, como disse. Mas não são três. A quarta menina, que
ainda é de colo, ficou com uma vizinha deles. Eu já não tenho mais saúde...
O
oficial fez anotações e se levantou, estendendo a mão.
-
Aguarde nosso telefonema, vovó.
Ela
foi saindo, encurvada, o vestido preto ainda mais preto. Ele gritou:
-
Fique tranquila que elas vão aparecer. As crianças e os bêbados têm um anjo da
guarda.
...
As
meninas nunca tinham passado uma noite em claro. O pai fazia questão que se
deitassem na hora certa. Encolhidas e abraçadas junto ao muro, no terreno
baldio, elas falavam baixinho para não chamar a atenção dos pedestres. Um
cachorro latiu para elas; agarraram-se mais forte. A noite custava a passar.
Até que o silêncio da rua e o cansaço fizeram suas pálpebras descerem e elas
caíram em estranhos sonhos.
No
outro dia havia uma presença nova entre elas: a fome. A vontade de aliviar as
necessidades já não era problema, Ciganinha já não protestava de ter que
fazê-lo no mato. Mas a barriga roncando era como uma fera que as perseguia.
Precisavam procurar comida.
-
Vamos achar uma padaria - sugeriu Mocinha, lembrando-se dos pães doces que o
pai trazia.
Havia
uma naquela mesma quadra. Chegaram-se ao balcão:
-
Queremos tomar café - disse a maior.
O
atendente não viu nenhum responsável.
-
Estão sozinhas, crianças? Muito bem... O que vocês tomam? Café com leite e pão
com manteiga?
Os
olhinhos delas brilharam.
-
Isso mesmo! - disse Ciganinha.
Sentaram-se
onde o rapaz indicou. Mas quando a garçonete veio com as canecas e os pães,
Ciganinha entregou:
-
Nós viemos procurar nosso pai, mas mudamos de casa e agora estamos
perdidas.
A
moça assustou-se.
-
É verdade o que disse a menininha?
-
É - falou Santinha – O pai vai achar nossa mãe e a bebê. E vamos todos voltar
pra casa.
-
Não a casa que tem um poço - aclarou Ciganinha - A nossa casa mesmo.
Dois
agentes policiais, um homem e uma mulher, entraram no edifício e caminharam
direto para a mesa onde as três comiam.
A
policial agarrou o telefone celular:
-
Sim, elas estão aqui. Positivo. Localizamos as fujonas.
O
policial foi agradecer ao dono da padaria por ter ligado para o Juizado de Menores
e pagou a conta.
-
Venham com a gente, meninas. Vocês vão conversar com uma assistente social
muito boazinha.
-
Queremos a nossa mãe - disse Ciganinha.
-
Podem esperar a gente terminar, por favor? - disse Mocinha.
Os
dois agentes se entreolharam, depois fizeram que sim. Podiam esperar o tempo
que fosse necessário. Que tomassem seu café da manhã tranquilas antes de serem
encaminhadas para o resto de suas vidas.
...
Nota
final:
Muitas
coisas nos aconteceram desde então. Nadamos nas ondas bravias da sobrevivência,
sem nunca nos perdermos de vista. Há muito que não me chamam “Mocinha”, mas sinto que ainda, nos livros que escrevo, sigo procurando aquela casa onde nosso pai se escondeu.
Querida Mana, as criancas se serviram de manta quente q agasalhou e acalmou a dor nos caminhos da vida. Te amo te
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