terça-feira, 28 de abril de 2026

DEBUTANTE

(conto)

Aos quatorze, os dias de Flora nunca eram iguais. Se num dia ela podia jurar que era a mais infeliz das criaturas, no outro sentia uma alegria louca, que lhe dava vontade de beijar as pessoas na rua ou até subir no palquinho da classe e cantar.

Seus amigos também eram assim mutáveis como a água, que toma as formas do recipiente. 

Veja sua colega Narinha. Outro dia, no fim do ano passado, Narinha era sua amiga, agora quase não se falam. Flora se lembra de como a amiga era uma criaturinha magra, de cabelo escorrido, e tão tímida que se escondia atrás dela para não ser vista pela professora. E agora quem a reconhecia? Voltara das férias diferente, criara corpo, deixava os cabelos caírem soltos nos ombros e conversava com os meninos na maior desenvoltura! 

Mas aquele dia parecia especial para Flora também. Fazia um calor abafado naquele começo de noite, prenunciando tempestade. No curso noturno havia uma eletricidade no ar. Coisas estranhas acontecendo. O professor de matemática lhe dera um B+ e a de português lhe pedira pra ler sua redação para a classe! Flora viu a expressão de admiração de Narinha, num gesto de bater palmas. 

A tempestade desabou poucos minutos antes de tocar o sinal, a turma se lançou para fora num alarido, indiferente à chuva. 

E então ela o viu. Estava ali, à sua espera! O garoto lindo da vizinhança, Lucas, por quem seu coração batia há tempos! 

Lucas pegou na sua mão, ela pensou que fosse desmaiar. Sorriram um para o outro, compreendendo, se dizendo tudo.

-Vim te acompanhar até sua casa...

A chuva caía grossa, o vento era congelante, mas dentro de seu corpo havia uma fornalha.

Foram saindo para a calçada. Então Flora a viu e gelou. Sua mãe, paradinha ali sob o aguaceiro, com um guarda-chuva a mais na mão - para ela. 

"Ela nunca veio me buscar..."

E a mãe pensava: "Minha filhinha, acompanhada?"

- Obrigada, mãe. 

Ficaram mais juntinhos, os dois, para caberem sob o guarda-chuva. Cada passo que davam era a promessa de um futuro impossível de imaginar de tantas delícias - quando o amor faria de Flora uma mulher!

A mãe ia alguns passos atrás, confusa, culpada. Tinha demorado tanto a se lembrar da filha, que ela estava quase indo embora, lhe escapava...? Como podia ter crescido tão depressa?

De tempos em tempos ela erguia o guarda-chuva contra o vento, espiava o parzinho de namorados. Que chuvarada esta noite!

FIM


Se você gostou e quer ver todo o conteúdo do blog, enderece para:

http://tesskuano.blogspot.com.br